terça-feira, 29 de setembro de 2020

Para a menina do sonho

Guardei para mim
o teu sono mudo.

Tiro os sapatos
para entrar neste lugar
de riso e memória,
escrevo uma história
dentro das palavras que iremos trocar.

O vento faz um caminho em ti
que desconheço.
Você me nega certezas,
não me diz qual é a sua religião,
não diz a que horas pensa em mim.

Peço que não negues
a sucessão de coisas
que estão por acontecer,
tenho medo que adoeças.

Tenho medo de que esqueças
o meu nome.

De onde vejo o mundo
já não dá mais pra voltar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Com o lilás e o amarelo

Quero escrever um poema
e usar as palavras:
faca, bonita, Ester
Maranhão

Mas prefiro falar sobre
todas aquelas coisas
que acontecem entre
a pele e o caminho

Eu quero pôr as mãos
no que vem do ventre
e morde

Com o lilás e o amarelo,
te chamar de meu amor

Dizer-te: foi para ti
que ajustei os botões do tempo,
deixei nu o que antes era vazio,
que quis muito dar um outro número
ao nosso amor e mesmo assim,
não foi concedida
uma ferida para o corpo que dói
(mas o coração sabe continuar)

Não é porquê danças
que a terra palpita,
há muito o céu se move
sem o trabalho dos homens.

"et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
"

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Para Cantar Nasci

O crítico inclina os olhos
para encontrar um verso bobo
que escrevi pra ti.


Ele quer ver verter o sangue:
peripatético, ovo, nevrálgico.


Quer ler um amor escondido,
não as palavras que eu tenho:
beijinhos peixinhos passarinhos
mar luar voltar.

Mas não há em mim
vocações de dicionário,
e o meu coração não está aí
para ser visto,

foi para cantar que nasci.